Vê-se melhor quando não se vai para ver nada, quando os olhos procuram tudo o que possam achar. E encontram tudo.

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

Profissão: Autor
Nacionalidade: Português

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É natural que os outros tenham sempre razão, pelo simples facto dos outros serem cinco biliões (ou lá o que é) menos um e de eu ser apenas esse um. Ser influenciado é assim um reconhecimento da nossa pequena participação no mundo e da riqueza interminável desse mundo; é um acto alegre de humildade; um sinal enérgico de dependência humana.

Uma das vantagens da velhice é deixarmos de nos preocuparmos com o que pensam os outros. Começa quando percebemos que somos nós - cada um de nós - que temos a única vida que vamos ter e que somos nós - cada um de nós - que vamos morrer sozinhos, cada um de cada vez.

Quase todas as mentiras são provocadas. As principais culpadas são as perguntas que se fazem.

O amor é uma coisa muito estranha, que todos os dias nos acorda, depois de sonhos inequívocos, a lembrar-nos que estamos condenados à pessoa que amamos. E ficamos, por estarmos apaixonados, convencidos. Que o nosso inteiro coração, por estar ocupado por ela, está entregue a expandir-se ilimitadamente por causa disso, por uma só pessoa.

O tédio parece chato ao princípio, mas, caso leve a um saudável desespero, acaba sempre por ser fértil e criativo.

Quando se quer realmente, dar-se-ia tudo por ter. A coisa ou a pessoa que se quer têm o valor imediato igual a todas as coisas e pessoas que já se têm.

Querer é poder, não só porque há coisas que não se conseguem sem que sejam realmente queridas, mas porque é realmente um «poder». Quem não quer nada sofre, por definição, de uma fraqueza. Por outras palavras, quem não quer nada a não ser o que tem, não avança – tem uma situação que não arrisca, que não aquece nem arrefece.

Pode ser-se giro e inteligente ao mesmo tempo e é por saber e exigir isso que as raparigas são mais inteligentes que os rapazes. A ideia de que «ou se é giro ou se é inteligente», «ou se é desportista ou se é intelectual» é tipicamente uma ideia de rapaz.

Estamos todos presos no presente. O presente pode não ser perpétuo, mas existe. O futuro nunca aconteceu.

Favorecemos sempre os próximos. Mas sempre mais os escolhidos do que os destinados. Ensinaram-me a minha mãe e o meu pai que tinha a liberdade de gostar de quem gostasse, fossem ou não de família.

A lealdade e a inteligência - acho eu - não são divisíveis. Quem é inteligente, é leal. Compensa. Recompensa. Corresponde. É verdade que há pessoas leais que são estúpidas mas, nessa lealdade, há já uma irrefutável inteligência.

O ser humano, por natureza, prefere o passado ao futuro ou vice-versa, sempre à custa do presente. Tanto a ideia que as coisas vão melhorar (não podem piorar mais) como a ideia que não vão piorar (é triste ficar na mesma).

A verdade, triste, é que uma pessoa completa, a quem não falta nada, não é capaz de querer outra pessoa como deve ser.

Pensar no fim do amor é uma dor escusada. É perder tempo. Quando acaba, precisamos de toda a dor que tivermos.