A verdade, triste, é que uma pessoa completa, a quem não falta nada, não é capaz de querer outra pessoa como deve ser.

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

Profissão: Autor
Nacionalidade: Português

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Portugal é cada vez mais uma sociedade de desalmados e safados, em que os bem-sucedidos exibem o sucesso deles diante dos fracassados. Passamos com o Range Rover na poça de água, de propósito para molhar o pedinte. A expressão "Não tenho pena nenhuma” generalizou-se.

No fundo, o amor tem pouco a ver com a presença, com a convivência, com o tempo e as experiências por que se passa. Quantas vezes acontece amar alguém sem suportar estar ao pé dela? Não é só na família.

Para um português, o castigo redime. O sofrimento alivia. Concreta a ansiedade. Enche o vazio. Dá um foco à errância desfocada da alma. Eu sei lá.

É um defeito particularmente português querermos distinguir-nos do empreendimento onde trabalhamos e de que fazemos parte. Preferimos falar, distantemente, do «lugar» ou «sítio» onde trabalhamos, como se fosse apenas uma questão utópica de localização.

O amor é um processo contínuo de conhecimento e aceitação. Não é um arrebatamento. Não é uma loucura. É um acto de inteligência, de curiosidade e de carinho sem fim. Não pode amar, nem ser devidamente amado, quem não pode suportar a verdade ou for incapaz de resignação.

A alegria nunca é constante, nunca é segura. Desprende-se do dia a dia. Não nos deixa neste mundo. A alegria é um estado à parte, que ninguém consegue tornar real. É como um filme em que se está. Mesmo para lembrar a alegria é difícil. Há qualquer coisa na alegria que não cola.

Os bebés são malcriados, preguiçosos e egoístas e «safam-se». É evidente. Não é justo, mas é evidente. Safam-se porque são lindos de morrer. Quando forem crescidos, vão ter de escrever sonetos, passar exames, comprar flores, escolher vinhos, esforçar-se.

O ciúme é ainda o melhor cumprimento dos amantes. Diz muito dentro: “Eu não te mereço”. Diz sem querer dizer: “Quero-te mais do que tenho – por muito que te tenha, quero-te, sempre muito mais”.

A fé não é apenas um conforto, um apaziguamento, um consolo. É uma forma de aceitação. É a desresponsabilização mais bonita do mundo. É uma forma que a alma arranja de não pedir explicações à vida.

Querer estar bem com todos é, quanto a mim, mais odioso que ter ódio a toda a humanidade. O amigalhaço é aquele que acaba por ser inimigo de todos, na maneira como se comporta, para ser amigo só de si mesmo, no resultado desse comportamento. A amizade só faz sentido quando traduz claramente uma escolha.

Às vezes - talvez sempre - são os mais lentos que aprendem as lições mais óbvias.

O amor não é um fim nem um meio – é uma condição. É por isso que o verbo “amar” é o que mais se parece com “encontrar”.

O tédio parece chato ao princípio, mas, caso leve a um saudável desespero, acaba sempre por ser fértil e criativo.

Mesquinho é o caso de amor que pode ser amavelmente resolvido com proveito para ambas as partes. Quando homem e mulher «ficam amigos» é porque nunca foram outra coisa. O amor verdadeiro é um desespero constante. Os problemas mais espectaculares só se resolvem com mortes. Não há conselhos que lhes valham.