Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

Clarice Lispector

Clarice Lispector

Profissão: Autor
Nacionalidade: Brasileiro

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E morre-se, sem menos uma explicação. E o pior - vive-se, sem ao menos uma explicação.

Viver me deixa tão nervosa, tão à beira de. Tomo calmantes só pelo facto de estar viva: o calmante me mata parcialmente e embota um pouco o aço demasiado agudo da minha lâmina de vida. Eu deixo de fremir um pouco. E passo a um estágio mais contemplativo.

E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor?

Quem eu sou, você só vai perceber quando olhar nos meus olhos, ou melhor, além deles.

A vida é tão contínua que nós a dividimos em etapas, e a uma delas chamamos de morte. Eu sempre estivera em vida, pouco importa que não eu propriamente dita, não isso a que convencionei chamar de eu. Sempre estive em vida.

Só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.

São os pequenos brilhos que encantam, os holofotes cegam.

Não sei, às vezes me parece que estou perdendo tempo.

Eu já começara a adivinhar que ele me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Fico com medo. Mas o coração bate...

Quem, como eu, estava chamando o medo de amor? E querer, de amor? E precisar, de amor?

Suponho que me entender não é uma questão de inteligência, e sim de sentir...

Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto.

Sinto que viver é inevitável.