O tempo que perdemos a fotografar ou a filmar onde vamos e o que fazemos: mais do que interrupções, são subtracções. O tempo perdido em apontamentos e fotografias é um estúpido virar-de-costas - um roubo - à riqueza daquela ocasião, sabida, à partida, finita.

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

Profissão: Autor
Nacionalidade: Português

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Uma lágrima enevoa, faz vir nuvens espessas ao céu dos olhos, e, de uma singela maneira, fecha-os ao que está lá fora e vira-os, com toda a beleza e intensidade, para o que está, por assim esclarecer, cá dentro de nós.

Ser amigo sem esforço, sem sacrifício, é ser amigo sem amizade. Gostar das pessoas é fácil. Ser amigo delas não é. Mas as coisas que valem a pena não podem deixar de ter a pena que valem. É pena não se poder ser amigo de toda a gente, mas um só amigo vale mais do que toda a gente. Porquê? Sei lá. Mas vale.

Não há criatura mais aterradora do que aquela que não é capaz de estar sozinha. Se nem ela se suporta a si mesma, como não há-de ser insuportável para os outros?

As cunhas são contraprodutivas - desfavorecem quem se procura ajudar.

A alegria nunca é constante, nunca é segura. Desprende-se do dia a dia. Não nos deixa neste mundo. A alegria é um estado à parte, que ninguém consegue tornar real. É como um filme em que se está. Mesmo para lembrar a alegria é difícil. Há qualquer coisa na alegria que não cola.

Só há um segredo para parecer mais novo do que se é, há só um: dormir. É um segredo que só se descobre quando já é tarde, mas é verdade: o tempo que se passa a dormir não conta. Só se envelhece quando se está acordado.

O verdadeiro humor é isento de justiça e de oportunidade. A sátira, que os Portugueses naturalmente adoram, é simplesmente uma forma de crítica – tem uma coerência chata.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Portugal está a tornar-se europeu. Em vez de se tornar europeu pelo lado bom e difícil – cuidando dos doentes, dos velhos e dos estudantes – está a tornar-se europeu da maneira mais estúpida e mais fácil. Está a ficar snob e xenófobo, como o Reino Unido, a França e a Itália.

Portugal é o paraíso dos parolos porque tudo lhes é permitido. E encomendado. Doutro modo não teríamos a riqueza da nossa arquitectura parola, a parolice especial da nossa música, a notoriedade pública dos nossos maiores políticos parolos.

Os portugueses gostam de fingir que a solidão deles, por ser de origem imprecisa e brumosa, é mais dolorosa e poética.

Quanto mais precisas para viver, mais tens de trabalhar e menos tempo tens para ti. O maior dos luxos é o tempo. O tempo é o meu maior património.

O português é curto, mas tem o corpo bem feitinho. É feiote, mas tem os olhos profundos e um caracol moreninho. Em público, pode ser gingão e malandreco, mas quando se apanha a sós, é ternurento e maneirinho.

A verdade, triste, é que uma pessoa completa, a quem não falta nada, não é capaz de querer outra pessoa como deve ser.