Não é pela cara que se topam os portugueses. É pela expressão. Os portugueses têm sempre cara de caso. É gente aflita. É um povo que exterioriza o que lhe vai nas entranhas, como um daqueles modelos médicos com pele de plástico transparente. Os portugueses têm cara de preocupados.

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

Profissão: Autor
Nacionalidade: Português

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Tanto a ciência como a religião estão muito atrasadas e são, desproporcionalmente, arrogantes e ambiciosas de mais, querendo ou sonhando explicar tudo o que é, sempre foi e manter-se-á incompreensível. Para o nosso bem ou mal: não somos capazes de fazer ideia.

A alegria nunca é constante, nunca é segura. Desprende-se do dia a dia. Não nos deixa neste mundo. A alegria é um estado à parte, que ninguém consegue tornar real. É como um filme em que se está. Mesmo para lembrar a alegria é difícil. Há qualquer coisa na alegria que não cola.

É dificílimo ser certinho. Qualquer palerma consegue ser um doidivanas que faz tudo o que lhe vem à cabeça. Qualquer trinca-tortas pode ser «imprevisível». Desde quando é que houve o mínimo custo em ser «irresponsável». Ser desorganizado não tem graça nem mérito. É estar inacabado.

Esperar não é necessariamente ficar à espera - é viver enquanto não acontece uma coisa que, afinal, queremos menos do que viver apenas. É bom.

Não só não me importo como acho uma honra ser, como se diz, pirateado. Não só pelo facto de eu próprio ser pirata. É porque o mundo mudou.

Uma lágrima enevoa, faz vir nuvens espessas ao céu dos olhos, e, de uma singela maneira, fecha-os ao que está lá fora e vira-os, com toda a beleza e intensidade, para o que está, por assim esclarecer, cá dentro de nós.

O querer é bonito porque, concentrando-se na coisa ou na pessoa que se quer, elimina o resto do mundo. O resto do mundo é uma entidade muito grande que tem graça e tem valor eliminar.

Conhecer um pouco a alma de quem se ama – melhor do que se conhece a nossa. É o mais que se pode fazer. Cada acto de amor deve ser um passo – não importa se inútil ou contraproducente, desde que não seja falso.

A essência da vida está fora de nós. Está nos outros todos juntos, sem lugar, sem tempo, sem saber como. A única coisa que temos é o amor.

Às vezes - talvez sempre - são os mais lentos que aprendem as lições mais óbvias.

O amor é um processo contínuo de conhecimento e aceitação. Não é um arrebatamento. Não é uma loucura. É um acto de inteligência, de curiosidade e de carinho sem fim. Não pode amar, nem ser devidamente amado, quem não pode suportar a verdade ou for incapaz de resignação.

Vê-se melhor quando não se vai para ver nada, quando os olhos procuram tudo o que possam achar. E encontram tudo.

Quase todas as mentiras são provocadas. As principais culpadas são as perguntas que se fazem.

Não se pode controlar excessivamente ninguém porque a experiência demonstra que quem se convence que está preso decide, por alguma absurda razão, fugir. É a natureza humana.