E assim escondo-me atrás da porta, para que a Realidade, quando entra, me não veja. Escondo-me debaixo da mesa, donde, subitamente, prego sustos à Possibilidade. De modo que desligo de mim, como aos dois braços de um amplexo, os dois grandes tédios que me cingem- o tédio de poder viver só o Real, e o tédio de poder conceber só o Possível.

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Profissão: Autor
Nacionalidade: Português

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Não tenho sinceridade nenhuma que te dar.

Possuir é ser possuído, e portanto perder-se. Só a ideia atinge, sem se estragar, o conhecimento da realidade.

Quem vê é só o que vê.

Ao voltar hoje a página de um livro de filosofia, tive a revelação de que a página seguinte seria igualmente inútil.

As coisas que errei na vida sei que as encontrarei na morte. Porque a vida é dividida entre quem sou e a sorte.

No teatro da vida quem tem o papel de sinceridade é quem, geralmente, mais bem vai no seu papel.

O comércio é uma distribuição, centrífuga ou centrípeta, da produção material, ou indústria; e a cultura é uma distribuição, centrífuga ou centrípeta, da produção mental, ou arte. Os fenómenos são, pois, rigorosamente paralelos.

Os psiquiatras sabem (às vezes) como trabalha o espírito doente, mas não como trabalha o espírito são.

Querer entender o que o outro sente é discordar dele,sentir o que o outro sente,é ser o outro...E ser o outro é de grande importância metafísica .

Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu.

Todos os caminhos vão dar ao mesmo lugar.

A essência do progresso é decadência. Progredir é morrer, porque viver é morrer.

Tudo que nos cerca se torna parte de nós, se nos infiltra na sensação da carne e da vida, e, baba da grande Aranha, nos liga subtilmente ao que está perto, enleando-nos num leito leve de morte lenta, onde baloiçamos ao vento. Tudo é nós, e nós somos tudo; mas de que serve isto, se tudo é nada?

A nossa vida é a nossa deselegância, o Bobo eterno que acompanha, e por vezes diverte, a nossa íntima e divina Realeza.