Tenho que começar por aceitar-me e não sentir o horror punitivo de cada vez que eu caio, pois quando eu caio a raça humana em mim também cai. Cada mudança, cada projecto novo causa espanto: meu coração está espantado. É por isso que toda a minha palavra tem um coração onde circula sangue.

Clarice Lispector

Clarice Lispector

Profissão: Autor
Nacionalidade: Brasileiro

Sugestões para você :

Há pessoas que têm vergonha de viver: são os tímidos, entre os quais me incluo. Desculpem, por exemplo, estar tomando lugar no espaço. Desculpem eu ser eu. «Quero ficar só!» grita a alma do tímido que só se liberta na solidão. Contraditoriamente quer o quente aconchego das pessoas.

Pior do que sofrer é sofrer sem dinheiro.

Sou mais aquilo que em mim não é.

Eu sou uma chama acessa !E rebrilho e rebrilho toda essa escuridão.

Há dias que são tão áridos e desérticos que eu daria anos de minha vida em troca de uns minutos de graça.

A vida humana é mais complexa: resume-se na busca do prazer, no seu temor, e sobretudo na insatisfação dos intervalos. [...] Toda ânsia é busca de prazer. Todo remorso, piedade, bondade, é o seu temor. Todo o desespero e as buscas de outros caminhos são a insatisfação.

Somente uma coisa me faria bem agora. Seria adormecer com a cabeça no seu colo, você me dizendo bobagenzinhas gostosas para eu esquecer a ruindade do mundo.

Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo o que é novo assusta.

A crueza do mundo era tranquila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.

Ver as pessoas mudando não é o que machuca. O que machuca é lembrar quem elas costumavam ser.

Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu mistério.

Estava rindo, quente, quente...

Ah viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não pára, viver parece ter sono e não poder dormir – viver é incómodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito.

À duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.