A razão deste mundo estava num outro mundo inexplicável.

Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.

O cansaço é uma velhice súbita.

Não é segurando nas asas que se ajuda um pássaro a voar. O pássaro voa simplesmente porque o deixam ser pássaro.

A descoberta de um lugar exige a temporária morte do viajante.

Dentro de mim, vão nascendo palavras líquidas, num idioma que desconheço e me vai inundando todo inteiro.

As ossadas são nossa única eternidade.

Só quem reza, em total entrega da alma, sabe desse acender e tombar da palavra nos abismos.

A vida é um por enquanto que há-de vir.

Eu me abria e confessava antigas lembranças ao estrangeiro. Vantagem de um estranho é que confiamos essa mentira de termos uma só alma.

O homem esquece para ter passado e mente para ter futuro.

Acendemos paixões no rastilho do próprio coração. O que amamos é sempre a chuva, entre o voo da nuvem e a prisão do charco. Afinal, somos caçadores que a si mesmo se azagaiam. No arremesso certeiro vai sempre um pouco de quem dispara.

Nas ondas estão escritas mil estórias, dessas de embalar as crianças do inteiro mundo.

A saudade é um morcego cego que falhou o fruto e mordeu a noite.

Quem tem insónia é o peixe que só adormece na frigideira.

Eu também, de vez em quando, afundo a minha canoa e me apresento como o da outra margem. Quando estou em ambientes demasiado literários, puxo do meu chapéu de biólogo. Quando estou entre biólogos que se levam muito a sério, rapidamente puxo do chapéu de escritor.

Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente.

Quando nascemos sabemos tudo, mas não lembramos nada. Depois crescemos, vamos ganhando lembrança e encolhendo sabedoria.

Não me interessa ter razão, não tenho apetência para esse tipo de poder, de marcar uma posição, dar um murro na mesa. Se entro numa discussão é à maneira chinesa, simplesmente para sugerir que pode haver outra maneira de olhar para as coisas.

Não são os mortos que ressuscitam, são os vivos.

O cansaço é um modo do corpo ensinar a cabeça.

As ruínas de uma nação começam no lar do pequeno cidadão.

O desânimo é uma doença contagiosa. E pode ser fatal. Cedemos a essa contaminação como que arrastados por uma vertigem e algo se derrama para sempre.

O mundo não é o que existe, mas o que acontece.

A dor é uma janela por onde a morte nos espreita.

No coração envelhecido de uma mãe, os filhos regressam sempre tarde.

A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho.

Essa habilidade em produzir diversidade, esse é o segredo da nossa vitalidade e das nossas artes de sobrevivência. Temos que saber manter essa capacidade - agora no plano cultural e civilizacional - para respondermos às novas ameaças que sobre todos nós pesam. As saídas que nos restam pedem-nos não o olhar do lince mas o olho composto da mosca.

Esse desesperado suspiro dos corpos se amando é que faz uma mulher se transcender, aceitar em si a semente de um infinito ser.

A guerra é uma parteira: das entranhas do mundo faz emergir um outro mundo. Não o faz por cólera nem por qualquer sentimento. É a sua profissão: mergulha as mãos no Tempo, com a altivez de um peixe que pensa que ele é que faz despontar o mar.

Que o amor é como o mar: sendo infinito espera ainda em outra água se completar.

A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassínio espectacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder crença no futuro.

Mentir não passa de uma benevolência: revelar aquilo que os outros querem acreditar.

A nossa língua comum foi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhes perdemos o rasto.

Saudade de um tempo? Tenho saudade é de não haver tempo.

A minha mãe costuma dizer que a água arredonda as pedras como a mulher molda a alma dos homens.

Contra factos tudo são argumentos.

Cozinhar é um modo de amar os outros.

A saudade é uma tatuagem na alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós.

A todos não nos basta ter um sonho. Queremos mais, queremos ser um sonho.

O que dói na morte é a falsidade. A morte apenas existe por uma brevíssima troca de ausências. Em outro ser, o morto irá renascer. A nossa dor é a de não sabermos ser imortais.

Os vindouros, esses que aguardam por corpo, são quem mais deveríamos temer. Porque deles sabemos o quase nada. Dos mortos ainda vamos recebendo recados, afeiçoamo-nos a suas familiares sombras.

É verdade que as novas tecnologias não costuram os buracos da nossa roupa interior, mas elas ajudam a alterar as redes sociais em que nos fabricamos.

A miçanga, todos as vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as miçangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo.

Vou contar a estória. Nem isso, pedaços da estória. Pedaços rasgados como as nossas vidas. Juntamos os bocados, mas nunca completa.

O pranto desoculta a nossa mais íntima nudez. Pela lágrima nos despimos.

O maior empobrecimento provém da falta de ideias, da erosão da criatividade e da ausência de debate produtivo. Mais do que pobres, tornamo-nos inférteis.

O que dói na morte é a falsidade. A morte apenas existe por uma brevíssima troca de ausências.

A urina de um homem sempre cai perto dele.