Talvez a imobilidade das coisas ao nosso redor lhes seja imposta pela nossa certeza de que tais coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento em relação a elas.

Pretendem os poetas que tornamos a encontrar por um momento o que fomos outrora, quando entramos em certa casa, em certo jardim em que vivemos na juventude. São peregrinações muito arriscadas, essas, ao fim das quais se colhem tantas decepções como êxitos. Os lugares fixos, coevos de anos diferentes, é em nós mesmos que é melhor encontrá-los.

O Amor nos leva não somente aos maiores sacrifícios pela criatura amada, mas, às vezes, ao sacrifício do nosso próprio desejo, aliás tanto menos satisfeito quanto mais se sente amada a criatura que cortejamos.

Menosprezamos facilmente um objetivo que não conseguimos alcançar ou que alcançámos definitivamente.

O desejo de agradar aos amigos é por assim dizer uma desforra da ambição.

Lembranças de coisas do passado não são necessariamente lembranças de como elas eram.

O amor causa verdadeiros levantamentos geológicos do pensamento.

A viagem da descoberta consiste não em achar novas paisagens, mas em ver com novos olhos.

A calma que resultava de minhas angústias findas dava-me uma alegria extraordinária, não menos que a espera, a sede e o medo do perigo.

Quis exprimir-lhe o que havia sonhado: trêmulo de emoção, tinha o máximo escrúpulo de que minhas palavras fossem todas o equivalente mais sincero possível do que eu sentira e jamais tentara formular a mim mesmo; o que quer dizer que minhas palavras não tiveram a mínima clareza.

A sabedoria não se transmite, é preciso que nós a descubramos fazendo uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas.

A sabedoria não nos é dada. É preciso descobri-la por nós mesmos, depois de uma viagem que ninguém nos pode poupar ou fazer por nós.

A esperança de ser aliviado lhe dá ânimo para sofrer.

O amor mais obcecante para alguém é sempre o amor de outra coisa.

Aliás, o amor é um mal incurável como aquelas diáteses em que o reumatismo só dá tréguas para ceder lugar a enxaquecas epileptiformes.

Certas recordações são como os amigos comuns, sabem fazer reconciliações.

E com essa intermitente grosseria que lhe voltava logo que ele não mais sofria e que rebaixava o nível de seu caráter moral, exclamou consigo mesmo: "E dizer que eu estraguei anos inteiros de minha vida, que desejei a morte, que tive o meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não era o meu tipo!".

Mas nem mesmo com referência as mais insignificantes coisas da vida somos nós um todo materialmente constituído, idêntico para toda a gente e de que cada qual não tem mais do que tomar conhecimento, como se se tratasse de um livro de contas ou de um testamento; nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio.

A adolescência foi a única época em que aprendi alguma coisa.

A verdadeira beleza é tão particular, tão nova, que não se reconhece como beleza.

É admirável como o ciúme, que passa o tempo a fazer pequenas suposições do que é falso, tem pouca imaginação quando se trata de descobrir o que é verdadeiro.

O ciumento suporta melhor a doença da mulher amada do que a liberdade dela.

O homem é a criatura que não pode sair de si, que só conhece os outros em si, e, dizendo o contrário, mente.

O apaixonado ciumento suporta melhor a doença do seu amante do que a sua liberdade.

As pessoas mundanas estão de tal modo acostumadas a que as procurem que quem lhes foge parece-lhes uma fênix e domina-lhes por inteiro o pensamento.

Uma verdade claramente compreendida não pode ser escrita com sinceridade.

Se sonhar um pouco é perigoso, a solução não é sonhar menos é sonhar mais.

De sorte que é um erro falar em má escolha de amor, pois, desde que há escolha, só pode ser má.

É em geral com o nosso ser reduzido ao mínimo que nós vivemos, a maioria de nossas faculdades permanece adormecida, porque repousa no hábito, que sabe o que cumpre fazer e não necessita delas.

Pois tanto a pena como o desejo, o que querem não é analisar-se, mas satisfazer-se.

O desejo floresce, a posse faz murchar todas as coisas.

As pessoas dizem sempre aquilo que precisam de dizer, o que não será entendido pelos outros; falar é uma coisa destinada a si mesmo.

É, de resto, uma das coisas mais terríveis para o apaixonado que, sendo os fatos particulares - que só a experiência, a espionagem, entre tantas realizações possíveis, dariam a conhecer - tão difíceis de descobrir, a verdade, em compensação, seja tão fácil de conhecer ou, em todo caso, de pressentir.

A covardia, que nos desvia de toda tarefa difícil e de toda obra importante, me aconselhou a deixar isso de lado, a beber meu chá pensando simplesmente nos meus aborrecimentos de hoje e nos meus desejos de amanhã, que se deixam ruminar sem custo.

A ressurreição ao despertar — após esse benéfico aspecto de alienação mental que é o sono — deve assemelhar-se no fundo ao que se passa quando encontramos um nome, um verso, um estribilho esquecido. E a ressurreição da alma após a morte talvez seja concebível como um fenômeno de memória.

Mas uma lembrança, um pesar são coisas móveis. Dias há em que se vão para tão longe que mal os distinguimos e os julgamos desaparecidos. Começamos então a atentar noutras coisas.

Não advertia que aquele detalhe verdadeiro tinha ângulos que só podiam encaixar-se nos detalhes contíguos do fato verdadeiro de que imprudentemente o destacara e que, quaisquer que fossem os detalhes inventados entre os quais o colocasse, sempre revelariam, pela matéria excedente e os vazios não preenchidos, que não era ali o seu lugar.

Ela era capaz de me causar sofrimento, mas de nenhum modo alegria. Só pelo sofrimento subsistia o meu aborrecido apego.

É muita vez apenas por falta de espírito criador que não se vai bastante longe no sofrimento. E a realidade mais terrível dá, ao mesmo tempo que o sofrimento, a alegria de uma bela descoberta, porque não faz senão dar uma forma nova e clara ao que ruminávamos desde muito sem o saber.

Tudo que foi prazer torna-se um fardo quando não mais o desejamos.

E eu continuava resistindo. E essa resistência me custava cada vez menos esforço, porque, por muito apego que se tenha ao veneno que nos está fazendo mal, quando por uma necessidade se passa algum tempo sem ingeri-lo, não é possível deixar de apreciar o descanso, que antes era coisa desconhecida, e a ausência de emoções e sofrimentos.

Muitas vezes, é unicamente por falta de espírito criador que não se vai muito longe no sofrimento. E a mais terrível realidade nos concede, ao mesmo tempo que o sofrimento, a alegria de uma bela descoberta, porque só faz doar uma forma clara e nova ao que ruminávamos há muito sem desconfiar.

En moi aussi bien des choses on été détruites que je croyais devoir durer toujours et des nouvelles se sont édifiées donnant naissance à de peines et à des joies nouvelles que je n´aurais pu prévoir alors, de même que les anciennes me sont devenues difficiles à comprendre.

Elástico é o tempo de que dispomos cada dia; as paixões que sentimos o dilatam, as que inspiramos o encurtam e o hábito o enche.

Pois a posse do que se ama é uma alegria ainda maior do que o amor.

Preenchemos a aparência física do ser que vemos com todas as noções que temos a seu respeito, e, para o aspecto global que nos representamos, tais noções certamente entram com a maior parte.

Pois o que nós julgamos seja o nosso amor, o nosso ciúme, não é uma mesma paixão contínua, indivisível. Compõem-se eles de uma infinidade de amores sucessivos, de ciúmes diferentes, mas, por sua multidão ininterrupta, dão a impressão da continuidade, a ilusão da unidade.

Os verdadeiros paraísos são os paraísos que se perderam.

Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças?