A verdade fica mais bonita nua, e a impressão que ela causa é mais profunda quanto mais simples for sua expressão.

Melhor deixar que os homens sejam como são do que acreditar no que não são.

Qualquer verdade passa por três estágios: Primeiro, é ridicularizada. Segundo, é violentamente combatida. Terceiro, é aceita como óbvia e evidente.

Do mesmo modo como nosso corpo é coberto por roupas, nosso espírito é coberto por mentiras. Nosso discurso, nossa acção, todo o nosso ser é mentiroso: e somente olhando através desse invólucro é possível, vez por outra, descobrir os nossos sentimentos, assim como através das roupas se descobre a forma do corpo.

O dinheiro é uma felicidade humana abstracta; por isso aquele que já não é capaz de apreciar a verdadeira felicidade humana, dedica-se completamente a ele.

As causas não determinam o caráter da pessoa, mas apenas a manifestação desse caráter, ou seja, as ações.

Livros maus são um veneno intelectual: estragam o espírito. A condição para ler obras boas é não ler obras más, pois a vida é breve, e o tempo e as forças são limitados.

Uma apreciação correcta do valor daquilo que se é em si e «para si» mesmo, comparado àquilo que se é apenas aos olhos «de outrem», contribuirá em muito para a nossa felicidade.

São apenas as cabeças pequenas e limitadas que temem seriamente na morte a destruição total do ser; dos espíritos verdadeiramente privilegiados tal medo fica completamente afastado.

Importa menos saber o que ocorre e sucede a alguém na vida, do que a maneira como ele o sente, portanto, o tipo e o grau da sua susceptibilidade sob todos os aspectos. O que alguém é e tem em si mesmo, ou seja, a personalidade e o seu valor, é o único contributo imediato para a sua felicidade e para o seu bem-estar.

O retraimento prolongado e a solidão deixam o nosso ânimo tão sensível, que nos sentimos incomodados, afligidos ou feridos por quaisquer acontecimentos insignificantes, palavras ou mesmo simples gestos; enquanto quem vive no tumulto do mundo nem chega a percebê-los.

O maior erro que um homem pode cometer é sacrificar a sua saúde a qualquer outra vantagem.

Os grandes dons espirituais fazem do seu possuidor um estranho para os outros homens e para a sua actividade, pois, quanto mais ele tem em si mesmo, menos pode encontrar nos demais, e cem coisas nas quais os homens têm grande satisfação acabam por lhes ser insípidas e intragáveis.

Assim, logo que nosso pensamento encontrou palavras, ele já deixa de ser algo íntimo, algo sério no nível mais profundo. Quando ele começa a existir para os outros, para de viver em nós, da mesma maneira que o filho se separa da mãe quando passa a ter sua existência própria.

Guardemo-nos de erguer a felicidade da nossa vida sobre um «amplo fundamento», exigindo muito dessa felicidade: pois, estando apoiada sobre tal base, ela desaba mais facilmente, já que oferece muito mais oportunidades para acidentes, que não tardam em faltar.

Em geral, nove décimos da nossa felicidade baseiam-se exclusivamente na saúde. Com ela, tudo se transforma em fonte de prazer.

A vontade considerada puramente em si mesma, é inconsciente; é uma simples tendência cega e irresistível, à qual encontramos tanto na natureza do reino orgânico e do vegetal e nas suas leis, como também na parte vegetativa da nossa vida.

Aquilo que representamos, ou seja, a nossa existência na opinião dos outros, é, em consequência de uma fraqueza especial da nossa natureza, geralmente bastante apreciado; embora a mais leve reflexão já nos possa ensinar que, em si mesma, tal coisa não é essencial para a nossa felicidade.

A fortuna da qual dispomos deve ser considerada como um muro protector contra os muitos possíveis males e acidentes, não como uma permissão ou, menos ainda, como uma obrigação de sair à procura dos prazeres do mundo.

O perfeito homem do mundo seria aquele que jamais hesitasse por indecisão e nunca agisse por precipitação.

O amor é o objetivo último de quase toda preocupação humana; é por isso que ele influencia nos assuntos mais relevantes, interrompe as tarefas mais sérias e por vezes desorienta as cabeças mais geniais.

Mesmo o ato mais nobre tem apenas uma influência temporária; a obra genial, em contrapartida, vive e age, benéfica e sublime, através de todos os tempos.

A virtude da modéstia é, decerto, uma invenção considerável para velhacos, pois, em conformidade com ela, cada um tem de falar de si mesmo como se fosse um deles, o que coloca todos magnificamente no mesmo nível, uma vez que produz a impressão de que não há absolutamente nada além de velhacos.

A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há-de ser, porque todo o fruto delicioso amadurece lentamente.

As pessoas, via de regra, são insolventes, isto é, nada há no seu convívio que indenize o tédio, as fadigas e incómodos que provocam, nem a auto-abnegação que impõem. Por isso, quase toda a sociedade é constituída de tal modo, que quem a troca pela solidão faz um bom negócio.

Toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode «ser ele mesmo», inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho.

A fé é como o amor: não pode ser obtida pela força.

A base de todo o querer é necessidade, carência, logo, sofrimento, ao qual o homem está destinado originariamente pelo seu ser. Quando lhe falta o objeto do querer, retirado pela rápida e fácil satisfação, assaltam lhe vazio e tédio aterradores.

O homem de génio e o doido assemelham-se neste ponto: que ambos vivem num mundo diferente daquele em que vivem os outros mortais.

Se possível, não devemos alimentar animosidade contra ninguém, mas observar bem e guardar na memória os procedimentos de cada pessoa, para então fixarmos o seu valor, pelo menos naquilo que nos concerne, regulando, assim, a nossa conduta e atitude em relação a ela, sempre convencidos da imutabilidade do carácter.

Exigir que um indivíduo conserve na sua mente tudo o que já leu é como querer que ele ainda traga dentro de si tudo o que já comeu na vida.

A posse mata todo o encanto.

Se alguém nos é de facto muito valioso, devemos ocultar-lhe essa conduta como se fosse um crime. Ora, semelhante atitude não é agradável, mas é verdadeira. Os cães não suportam uma amizade excessiva; os homens, menos ainda.

Não existe empreendimento mais custoso do que querer precipitar o curso calculado do tempo. Evitemos portanto dever-lhe juros.

Durante a leitura a nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios.

Aquele que dependeu apenas de si mesmo e pode, em tudo, ser tudo para si, é o que se encontra em melhor situação.

Poderíamos prever que, às vezes, as crianças parecem inocentes prisioneiras, condenadas não à morte, mas à vida, sem ter consciência ainda do que significa essa sentença. Mesmo assim, todo homem deseja chegar a velhice, época em que se pode dizer: "Hoje está ruim e cada dia vai piorar até o pior acontecer".

Um homem pode ser ele mesmo somente enquanto ele está sozinho, e se ele não gosta de solidão, ele não vai amar a liberdade, pois é somente quando ele está sozinho, que ele é realmente livre.

A maior sabedoria é ter o presente como objeto maior da vida, pois ele é a única realidade, tudo o mais é imaginação. Mas poderíamos também considerar isso nosas maior maluquice, pois aquilo que existe só por um instante e some como sonho não merece um esforço sério.

Quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre.

Um bom cozinheiro pode dar gosto até a uma velha sola de sapato; da mesma maneira, um bom escritor pode tornar interessante mesmo o assunto mais árido.

Podemos comparar a sociedade a uma fogueira na qual o sábio se esquenta sem lhe por a mão, enquanto o néscio, depois de queimá-la, gemendo de dor, foge para a solidão...

O tipo mais barato de orgulho é o orgulho nacional.

Quanto mais insignificante for aquilo que, tomado em si mesmo, nos aflige, tanto mais nós somos felizes, pois é preciso um estado de bem-estar para nos impressionarmos com bagatelas: na infelicidade, nunca as sentimos.

A serenidade e a vitalidade da nossa juventude baseiam-se em parte no fato de que nós, ao subirmos a montanha, não vermos a morte, pois ela encontra-se do outro lado da encosta.

Ocorre-nos, em geral, na vida, o que ocorre ao viajante, à medida que prossegue: os objetos adquirem formas diferentes das que mostravam de longe, e se modificam, por assim dizer, à medida que delas se aproxima o caminheiro.

O instinto de sociabilidade de cada um está na proporção inversa da sua idade.

Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na proporção correta com a qual dedicamos a nossa atenção em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um não estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: são os levianos; outros vivem em demasia no futuro: são os medrosos e os preocupados.

Usar de polidez é uma tarefa difícil, pois exige que testemunhemos grande consideração por todas as pessoas, enquanto a maior parte delas não merece nenhuma; ademais, precisamos simular o mais vivo interesse por elas, quando em verdade temos de estar contentes por não o sentirmos. Unir polidez com orgulho é uma obra-prima.