Viver do próprio a pão e água é a maior penitência: viver do alheio, ainda que seja a pão e água, é grande regalo. Tão saboroso bocado é o alheio!

Vencer é avantajar-se, competir é medir-se.

Vemos que todo este mundo é vaidade, que a vida é um sonho, que tudo passa, que tudo acaba, e que nós havemos de acabar primeiro que tudo, e vivemos como se fôramos imortais, ou não houvera eternidade.

Uns se conservam pelo que foram, outros pelo que são.

Uma velhice enganada é a maior sem-razão do tempo: uma mocidade desenganada, é a maior vitória da razão.

Um grande delito muitas vezes achou piedade; um grande merecimento nunca lhe faltou a inveja.

Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma, porém o primeiro rendido é o entendimento.

Três mais há neste mundo pelos quais anelam, pelos quais morrem e pelos quais matam os homens: mais fazenda; mais honra; mais vida.

Todos querem mais do que podem, nenhum se contenta com o necessário, todos aspiram ao supérfluo, e isto é o que se chama luxo.

Todos os que na matéria de Portugal se governaram pelo discurso, erraram e se perderam.

Todos imos embarcados na mesma nau, que é a vida, e todos navegamos com o mesmo vento, que é o tempo.

Todos atiram ao alvo e poucos acertam, porque o acertar é de uma só vez, e o errar é de muitas.

Todo o relógio perfeito não só dá horas, mas tem um braço mostrador com que as aponta.

Todas as guerras deste mundo se fazem para conseguir a paz.

Tem o interesse olhos de multiplicar, ou as dignidades a que anela, ou as riquezas a que aspira, parecendo-lhe sempre mais do que são, porque estão inficcionados com o achaque da cobiça.

Tanto são maiores finezas, quanto mais ocultas, porque fazer o benefício e esconder a mão, assim como é maior generosidade, assim é maior fineza.

Tanto foi em todas as idades do mundo e tanto é hoje, na curiosidade humana, o apetite de conhecer o futuro!

Tanto depende o que se diz da autoridade de quem o diz.

Somos o que fazemos. O que não fazemos, não existe. Assim, apenas existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos, simplesmente suportamos.

Somos o que fazemos. Nos dias em que fazemos, realmente existimos; nos outros, apenas duramos.

Sobre presunções não assenta bem alguma condenação de direito, principalmente quando é grave.

Só se sabe querer bem, quem se sabe livrar de si.

Só quem tem por natureza o mais, tem confiança para se chamar o menos.

Só no que sobeja se segura o que basta.

Só a necessidade há-de obrigar à guerra, mas a vontade sempre há-de desejar a paz.

Sendo tão natural ao homem o desejo de ver, o apetite de ser visto é muito maior.

Sendo muito poucos no mundo os homens que podem luzir, aqueles diante dos quais se possa luzir, ainda são muito menos.

Sendo a glória o fim e a graça o meio de a conseguir, antepor a graça à glória e o meio ao fim, não só parece dissonância, senão desordem manifesta.

Sempre se deve antes escolher paz do que guerra, principalmente quando na guerra é tão certa a ruína.

Sempre se deram as mãos a ruína e a felicidade.

Sem igualdade e igualdade com todos, não há paz.

Seja o futuro emenda do passado, e o que há-de ser, satisfação do que foi.

Se um homem está verdadeiramente arrependido, se conhece verdadeira e profundamente as suas culpas, nunca ninguém dirá dele tanto mal, que ele se não julgue por muito pior.

Se os olhos vêem com amor o que não é, tem de ser.

Se o só não terá quem o levante, também não terá quem o derrube. E maior felicidade é carecer do perigo de quem me derrube, que haver mister o socorro de quem me levante.

Se nos vendemos tão baratos, porque nos avaliamos tão caros?

Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro.

Se não quero fazer companhia, arrisco-me a ficar só. Se quero ser amigo de todos, arrisco-me a ter todos por inimigos.

Se as dores inconsoláveis podem ter alguma consolação e alívio, é a semelhança ou companhia de outrém, que as padeça iguais.

Saudar com os iguais é acto de amizade, com os maiores de urbanidade, e com todos de humanidade.

Queremos ir ao Céu, mas não queremos ir por onde se vai para o Céu.

Quereis só o que podeis, e sereis onipotentes.

Quem tem seis asas e voa só com duas, sempre voa e canta. Quem tem duas asas e quer voar com seis, cansará logo e chorará.

Quem tem muito dinheiro, por mais inepto que seja, tem talentos e préstimo para tudo; quem o não tem, por mais talentos que tenha, não presta para nada.

Quem só dá aos particulares, diminui o poder, porque se faz senhor de poucos.

Quem se confessa por réu, não lhe fazem agravo as testemunhas.

Quem quiser apurar os quilates do amor, toque o amor do que se ama com o amor do que se deixa, e logo conhecerá quão fino é.

Quem quer mais que lhe convém, perde o que quer e o que tem.

Quem pode mostrar em sua mão os despojos, sempre tem por si a presunção da vitória.